a Nau Catrineta

21-06-2013 07:34

Nau Catrineta

 

Lá vem a Nau Catrineta,

que traz muito que contar!

Ouvide agora, senhores,

Uma História de pasmar.

 

Passava mais de ano e dia

Que iam na volta do mar,

Já não tinham que comer.

Já não tinham que manjar.

 

Deitaram sola de molho

Para o outro dia jantar;

Mas a sola era tão rija,

Que a não puderam tragar.

 

Deitaram sortes à ventura

Qual se havia de matar;

Logo foi cair a sorte

No capitão-general.

 

- Sobe, sobe marujinho,

àquele mastro real,

Vê se vês terras de Espanha,

As praias de Portugal!

 

- Não vejo terras de Espanha,

Nem praias de Portugal;

Vejo sete espadas nuas

Que estão para te matar.

 

- Acima, acima, gajeiro,

acima ao tope real!

Olha se enxergas Espanha,

Areias de Portugal!

 

- Alvíssaras, capitão,

meu capitão-general!

Já vejo terras de Espanha,

Areias de Portugal!

Mais enxergo três meninas,

Debaixo de um laranjal:

Uma sentada a coser,

Outra na roca a fiar,

A mais formosa de todas

Está no meio a chorar.

 

 

- Todas três são minhas filhas.

Oh! Quem mas dera abraçar!

A mais formosa de todas

Contigo a hei-de casar.

 

- A vossa filha não quero,

que vos custou a criar.

 

- Dar-te-ei tanto dinheiro

que não o possas contar.

 

- Não quero o vosso dinheiro

pois vos custou a ganhar.

 

- Dou-te o meu cavalo branco,

que nunca houve outro igual.

 

- Guardai o vosso cavalo,

que vos custou a ensinar.

 

- Dar-te-ei a Nau Catrineta,

para nela navegar.

 

- Não quero a Nau Catrineta,

que a não sei governar.

 

- Que queres tu meu gajeiro,

que alvíssaras te hei-de dar?

 

- Capitão, quero a tua alma,

para comigo levar!

 

- Renego de ti demónio

que me estavas a tentar!

A minha alma é só de Deus;

O corpo dou eu ao mar.

 

Tomou-o um anjo nos braços,

Não no deixou afogar

Deu um estouro o demónio,

Acalmaram vento e mar,

 

E à noite a Nau Catrineta

Estava em terra a varar.

 

GARRETT, Almeida, Romanceiro, Livr. Simões Lopes