Lenda das Amendoeiras em Flor

22-07-2013 18:47

E tal como ontem… como hoje... como amanhã… a brisa da vida que passa levará o eco da mesma voz, a repetir sempre e sempre o amoroso começo das histórias que o povo guarda no seu coração: Era uma vez... 
 
Pois era uma vez, há muitos e muitos séculos, antes de Portugal ter nascido para a história do mundo… Então, ainda o Al-Gharb pertencia completamente aos Árabes ou Mouros (como nós lhe chamamos, por terem vindo da Mauritânia) e possuía a sua zona de maior importância na região de Al-Faghar, cuja capital era a sumptuosa e remota Chelb, a cidade de Silves…
 
Reinava, com toda a fama da sua valentia e com a força do seu poderio, o famoso Ibne-Almundim, guerreiro protegido excepcionalmente por Alá, porque nunca conhecera a derrota. Era muito novo, sim, mas já o consideravam, e com toda a razão, o mais temido dos reis mouros do seu tempo. O mais temido e o mais destemido de todos eles!
Ora, aconteceu um dia que, entre os prisioneiros de uma terrível batalha, surgiu uma linda princesa, muito loira, de olhos azuis e de porte altivo. Um tipo de beleza que, na verdade, o rei mouro nunca vira até então. 
E logo mandou que a trouxessem à sua presença. 
— Como vos chamais?
Ela olhou-o serenamente. E serenamente respondeu: 
— Gilda, Senhor. O meu nome é Gilda.
Foi a vez dele sorrir. Um sorriso confuso. 
— Gilda? Que nome estranho!...
Depois, num repente, inclinou-se para ela. 
— Melhor é que vos chame apenas «a bela Princesa do Norte»… Gostais? 
Gilda limitou-se a retorquir, num leve encolher de ombros. 
— Sou vossa prisioneira, Senhor… 
Fez uma breve pausa e rematou, entre dois suspiros: 
— Vossa prisioneira… e vossa escrava. 
Mas ele ergueu-se e exclamou com voz emocionada: 
— Enganais-vos!... A partir deste instante, sois livre… inteiramente livre!
E abarcando com o olhar e com a voz todos os outros que o rodeavam, ajuntou em tom forte e autoritário, para que o escutassem bem: 
— Libertem-na!... Que ninguém se atreva a tocar-lhe!... Ela poderá ir para onde quiser e fazer tudo quanto lhe apeteça! Ouviram?... Compreenderam?... Espero que sim! 
Depois, num gesto de galanteria, voltou-se para Gilda e disse, já com voz branda: 
— Senhora… Como vedes, não sois mais prisioneira nem escrava… Mas continuais a ser «a bela Princesa do Norte»! 
Um sorriso bonito aflorou aos lábios de Gilda. Sorriso de gratidão e de simpatia. E também de confiança. Foi a sua resposta. A sua única resposta. E poderia ser melhor?... 

E o certo é que esse rei, alegre e folgazão, valente e dominador, passou a andar taciturno, apreensivo, com largas crises de mau humor. Havia qualquer coisa nele que não era habitual. Andava obcecado por um pensarnento. Pensamento que ardia no seu íntimo e que o devorava lentamente, muito lentamente. 
O rei mouro sentia o desejo, a necessidade de voltar a ver Gilda, de lhe falar, de a ouvir… E esse momento não se fez demorar muito…
 
Foi encontrá-la, preparando-se para voltar à sua terra. 
Ele não escondeu a tristeza que o invadia. 
— Sempre teimais em ir embora, bela Princesa do Norte? 
Gilda voltou a sorrir o seu sorriso bonito. Bonito e meigo. 
— Não é teima, Senhor. É unicamente a vontade de voltar à minha terra... 
Ele aproximou-se mais. 
— E é assim tão forte... tão grande, essa vontade… que não vos deixa ler nos meus olhos aquilo que os meus lábios não se atrevem a dizer? 
Surpreendida (ou fingindo-se surpreendida), Gilda olhou de frente para o rei mouro. Olhar profundo, investigador. 
— Como, Senhor?... Que dizeis?... Não vos compreendo... 
Ibne-Almundim, o invencível rei mouro, corou como se fosse um simples garoto enamorado. E a sua voz tremeu. 
— Pena tenho que assim suceda... Mas a verdade é que deveis possuir alguma coisa de magia... Mesmo longe de mim vos tenho sentido perto, Gilda! 
Ambos suspiraram. Depois ele perguntou vagarosamente. 
— Ouvistes como eu disse agora o vosso nome... Gilda? 
E ela ruborizou-se também, e a sua voz tremeu. 
— Pareceu-me tão doce, que quase não o conheci... 
O rei mouro ganhou de súbito novos entusiasmos. As suas mãos prenderam as mãos de Gilda. 
— E quereis saber porquê?... Disse o vosso nome mais com o coração do que com os lábios! 
Um murmúrio saiu dos lábios de Gilda: 
— Senhor... 
Mas já ele, revigorado pela esperança, deixava que a febre do amor se apossasse da sua voz e dos seus gestos. 
— Para quê disfarçar, Gilda?... Eu não quero... eu não posso deixar-vos partir... Ficai, Gilda, ficai! Peço-vos! Vós sereis minha mulher! 

E desde então se diz que se realizaram por tal motivo festas de um aparato invulgar. O casamento de lbne-Almundim, o jovem e poderoso rei mouro do Al-Faghar, com Gilda, a bela e cativante Princesa do Norte, atraiu gente de todos os lados. Chelb viveu horas extraordinárias de alegria e de prazer. Vieram preciosas oferendas. Vieram trovadores e músicos de terras distantes. Vieram bailarinas de corpos esculturais, que enfeitiçavam os olhares dos homens. 
Tudo isso durou vários dias e várias noites, num crescendo de entusiasmo... 

Foi precisamente no meio da festa do último dia, quando a alegria estava no auge, que o rei mouro deu pela falta de Gilda, a bela Princesa do Norte, que era já a sua esposa. 
Ao primeiro momento de espanto seguiu-se uma crise violenta de fúria. 
— Gilda! Gilda!... Onde está Gilda? 
E como os outros o olhassem, sem responder, o rei mouro ordenou, num berro: 
— Procurem-na, imbecis!... Descubram-na!... Ai de vós se não a encontrais, ai de vós! 
Seguiu-se um tumulto enorme por todo o palácio. Apavorados com a ameaça do rei, os seus vassalos depressa deram com o paradeiro de Gilda, a bela Princesa do Norte... 
Estava doente, quase morta, estirada no leito, ainda mais loura e pálida do que habitualmente e com os seus lindos olhos azuis inundados de lágrimas. 
Mal tomou conhecimento do facto, Ibne-Almundim, como que tresloucado, correu a ajoelhar-se junto de Gilda. 
— Senhora… dizei-me o que sentis… qual a doença que vos aflige… A custo ela conseguiu voltar a cabeça para ele. Os seus olhos quiseram sorrir, mas as lágrimas não deixaram. A sua voz quis ser forte e segura, mas vacilou e tremeu. 
— Meu bom rei e senhor... não sei... não sei!... De súbito fiquei assim… Acreditai... Não sei porquê... mas pesa-me o coração... Pesa-me muito!... E custa-me a falar… Sinto que vou morrer! 
Num brado de angústia, o rei mouro agarrou-se às mãos frias da sua bem-amada. 
— Que Alá vos proteja!... É preciso que vos cureis, Gilda!... Sem vós, eu já não saberia viver!
Ela bem quis soerguer-se. Inutilmente. Caiu para trás, e a sua voz tornou-se ainda mais trémula e velada. 
— Como eu vos agradeço, Senhor... Tendes sido bom, magnânimo.. Eu queria corresponder ao vosso desejo... Porém, tudo se acabou... Já nem tenho forças para me levantar daqui... Repito-vos, Senhor... Sinto-me morrer aos poucos... 
E mergulhou numa prostração, que mais parecia a antecâmara da própria morte. Gilda deixou de ouvir. Nem as palavras, nem as súplicas, nem as lágrimas de Ibne-Almundim. Nada!
 
Num derradeiro recurso, o rei mouro deu ordem para que se reunissem urgentemente no palácio todos os sábios do reino. Eles vieram, sim, mas nada conseguiram. A bela Princesa do Norte não voltara a abrir os seus lindos olhos azuis. Tal como pressentira, continuava a morrer lentamente… 
E quando o rei mouro, abatido, desalentado — vencido pela primeira vez na sua vida! — já não tinha mais qualquer esperança e chorava sozinho a sua dor, vieram dizer-lhe que um velho prisioneiro, também das terras do Norte, antigo súbdito do pai de Gilda, queria falar-lhe. Primeiro disse que não, que não queria ver pessoa alguma. Depois hesitou, interrogando-se a si próprio: E se ele soubesse algo a respeito da doença de Gilda?... Então mandou que entrasse. 
E um velho, mirrado pelo sofrimento e pela idade, mas ainda altivo e de olhar profundo, avançou até junto de Ibne-Almundim. 
— Sei o que vos aflige, rei dos mouros. E poderei ajudar-vos... Não por vós, que fostes um tirano para o meu povo... Mas por ela, a minha linda princesa! 
O outro olhou-o desconfiado. 
— E que sabes tu de doenças, para a poderes salvar, quando os outro já fracassaram? És sábio, também? 
O velho sorriu levemente e retorquiu com galhardia. 
— Não sou sábio, não, Real Senhor... Sou poeta!  
O punho fechado do rei mouro descarregou um soco violento sobre o braço da cadeira em que se sentava. 
— Poeta?... E para que me serve a poesia neste momento? 
Ousado, o velho prisioneiro deu um passo em frente e a sua voz não perdeu a calma. Pelo contrário, tornou-se mais segura. 
— Para vos abrir os olhos, Senhor, já que teimais em tê-los fechados diante da luz da Verdade... 
Furioso, o rei mouro levantou-se. 
— Que dizes? 
E foi ele que avançou agora para o velho prisioneiro. Severo. Ameaçador. Cruel. 
— Pois escuta. Já que pensas assim, vou propor-te um dilema. Se salvares a rainha, ficarás livre para sempre e encher-te-ei de ouro, de muito ouro... Mas se não a salvares, espera-te a morte mais horrível que possas imaginar! 
Espantosamente calmo, como se nada fosse com ele, o velho poeta das terras do Norte disse apenas: 
— Estou pronto, Senhor. Levai-me junto da minha princesa. 
Aturdido por tamanha confiança, o rei mouro não hesitou nem mais um momento. E conduziu o velho pelos corredores do palácio, até à alcova onde Gilda agonizava, morrendo aos poucos... 

Ambos ficaram olhando a bela princesa adormecida. Olhando em silêncio. E em silêncio pensando: Que imagem maravilhosa, apesar do cenário de dor que a rodeava! Pálida e loira, parecia um anjo adormecido! 
Ainda em silêncio, o velho poeta das terras do Norte avançou devagar, debruçando-se sobre Gilda. Assim esteve alguns minutos. Rezando? Meditando? Esperando?... Não se sabe... Sabe-se, sim, que ao fim desses minutos de dramática expectativa, Gilda reabriu os olhos. E voltou a sorrir! E voltou a falar! 
— Meu pobre poeta, também tu!... Isto é mal que não tem cura, com certeza! Não achais? 
E a voz do velho poeta, calma, serena, encheu todo o aposento: 
— Não, princesa, não acho. Estais enganada. O vosso mal tem cura, mas não são os sábios que o podem curar... São os velhos poetas como eu. 
E logo, afastando-se, fez um sinal a Ibne-Almundim para que o seguisse até ao terraço. Ainda mal refeito da surpresa, sem saber que pensar ou dizer, o rei mouro assim fez. 
— Sabeis, Senhor, qual é o nome desta doença? 
O outro olhou-o ainda mais surpreendido e confuso. 
— Não… Não sei. 
O velho poeta suspirou profundamente antes de continuar. 
— Pois chama-se nostalgia, Senhor... Nostalgia! ... Ou seja, a minha bela princesa tem saudades da neve do seu país distante... Da neve que nesta altura do ano enfeita de branco os campos e as terras até onde os olhos podem alcançar… 
Voltou a suspirar e ultimou com autoridade o seu pensamento: 
— São essas saudades que a vão matando, Senhor! 
Quase tímido, o invencível rei mouro perguntou, estupefacto e receoso: 
— Saudades do seu país? Saudades da neve? 
— Sim, Real Senhor... Saudades!... Mas eu conheço o remédio para tal nostalgia, ainda que vos possa parecer estranho. 
Num impulso, o rei mouro agarrou-o.
— Diz... Diz depressa!... Correrei a buscá-lo! E não terei descanso até o alcançar! 
Mas o velho poeta voltou a sorrir. 
— Não é preciso correr, Senhor… Basta que mandeis plantar em todo o vosso reino, e muito especialmente aqui, diante do palácio, muita amendoeiras... E quando as amendoeiras florirem as suas flores brancas darão a ideia da neve aos olhos saudosos da princesa — e ela curar-se-á. 
Semicerrando os olhos, como que numa prece, Ibne-Almundim acentuou com uma voz já repleta de fé e de alegria. 
— Que se faça o que propões e que Alá te escute!
E tudo aconteceu como previra o velho poeta. Quando a Primavera chegou, as amendoeiras em flor plantadas por todo o reino de Chencir pareciam neve cobrindo os caminhos, e os campos, e as colinas!... 
Ajudada pelo braço forte do rei mouro, Gilda acedeu a levantar-se e assomar à janela do terraço. Mas logo quedou espantada, estática, mal podendo acreditar no que os seus olhos viam. 
— Será possível?... Isto é neve… a neve de que eu tinha tantas, tantas saudades!... Como isto é lindo! E como eu sinto ganhar forças, de repente! 
Agarrou-se amorosamente ao braço de Ibne-Almundim. 
— Sim, meu rei e senhor bem-amado... Já não tenho medo de morrer… Já não me pesa o coração... Já me sinto como era antigamente! 
E emocionado também, estreitando-a num amplexo de amor, ele afirmou, com júbilo sincero: 
— Estais curada, Senhora, que eu bem vejo! O velho poeta tinha razão e Alá ouviu as minhas súplicas!... Daqui em diante, acreditai, o nosso amor será eterno! 
Deixando-se enlaçar docemente, Gilda, a bela Princesa do Norte, confessou baixinho: 
— Tendes razão, meu senhor!... Somente me posso mostrar grata se vos dedicar um amor eterno! E eu prometo... 
Mas nada mais conseguiu dizer. As restantes palavras fundiram-se num beijo grande e profundo. Num beijo de verdadeiro amor! 

Ajunta ainda a voz da tradição que todos os anos a rainha e o rei esperavam alvoroçadamente pelo maravilhoso espectáculo das amendoeiras em flor — que substituíam assim a neve das terras do Norte. E que viveram sempre felizes e amorosos. E que o velho poeta chegou a ser um dos vultos de maior relevo na remota e sumptuosa Chelb, capital opulenta de um reino de poesia e de sonho, agora oculto entre os tesouros do passado.

Fonte BiblioMARQUES, Gentil Lendas de Portugal Lisboa, Círculo de Leitores, 1997 [1962] , p.Volume III, pp. 205-211