Contos do Oriente

 

 Acrescentar pernas à serpente

 
 
 
O dragão aparece muito nas lendas chinesas. Os imperadores consideravam-se e eram considerados pelos seus súbditos “dragões enviados à Terra pelo Deus do Céu”, ou “filhos do dragão”.
 

No reino Chu, que existiu na antiguidade chinesa, houve certo dia, uns criados a quem o patrão deu, como presente, uma garrafa de aguardente que havia sobrado dos rituais em memória dos antepassados. Houve, então, quem dissesse:
- Uma garrafa de aguardente para tanta gente? Não dá para matar a sede de ninguém! É melhor que fique só para um de nós.
Todos concordaram com a ideia. Mas quem abriria mão da sua oportunidade de ficar com a garrafa? O que fazer?
Um dos criados propôs então:
- Cada um de nós vai desenhar uma serpente no chão, e quem acabar primeiro ficará com a garrafa.
- Boa ideia! Disseram os outros.
Pegando nos “pauzinhos” que habitualmente usavam para comer, todos começaram apressadamente a desenhar as suas serpentes.
Passados alguns minutos, um deles acabou o desenho, e logo agarrou a garrafa. Porém, antes de a levar à boca, pôs-se a olhar para os amigos, que ainda não tinham conseguido fazer a cabeça da serpente, ou estavam ainda a começar o seu desenho. Pensou então:
- Ainda tenho tempo de pôr algumas pernas à minha serpente.
Enquanto retocava a sua obra, um dos outros acabou o desenho, e arrebatou-lhe a garrafa das mãos, dizendo:
- As serpentes não têm pernas! Com pernas, não seria uma serpente.
Dito isto, bebeu a aguardente de um só trago, deixando boquiaberto aquele que decidira acrescentar as pernas à sua serpente.
 

Hou Yi derriba sóis

 

Antigamente, havia dez sóis no céu, os quais, com seus raios, não só queimavam as colheitas, como também asfixiavam os homens. Como o calor era tão tórrido, as bestas selvagens tiveram que fugir dos rios secos e os bosques incendiados, atacando os seres humanos.
As queixas do povo comoveram aos deuses celestiais. O imperador celeste mandou Hou Yi quem era um hábil arqueiro, a descer à Terra e ajudar o imperador Yao para livrar os homens da desgraça. Com seu arco e flechas, Hou Yi desceu à Terra junto com sua bela mulher Chang E, sendo aplaudido pela gente.
Ao chegar ao mundo humano, Hou Yi aconselhou os sóis a colocar um plantão por dia, trazendo o calor e a luz à Terra e evitando o aquecimento demasiado. Mas, os sóis recusaram a proposta de Hou Yi. Irritado, Hou Yi inicou sua batalha. Colocou-se no centro da praça, tirou seu arco vermelho, disparou suas flechas brancas para os sóis, derribando em um instante nove deles, deixando apenas um a pedido do imperador Yao, pois o povo o necessitava para seu benefício.
As façanhas de Hou Yi provocaram a inveja de outros deuses, quem denegriam a reputação dele perante o imperador celeste. Como consequência, o soberano deixou de ter confiança nele, mandou-o descer à Terra e não permitiu-o regressar ao céu. A partir do então, Hou Yi viveu com sua mulher Chang E em hermitão ganhando-se a vida como caçador.
Passaram alguns anos. Hou Yi afligia-se porque sua esposa teve que vivir na Terra e decidiu ir à montanha Kunlun pedir o elixir à Rainha Mãe do Oeste com o fim de voltar ao céu. Mas, o elixir era suficiente para uma pessoas apenas. Hou Yi não queria ir ao céu abandonar a esposa nem vice-versa. Voltou para casa e escondeu o remédio.
Sem embargo, Chang E não queria suportar a vida pobre, procurou e achou o elixir quando Hou Yi estava ausente, e tomou o elixir. Pouco a pouco, começou a fluir até o céu e finalmente chegou à Lua.
Hou Yi continuava vivendo da caça na Terra e recebeu vários aprendizes ensinando-os a atirar flecha. Um deles chamava-se Feng Meng e progrediu rapidamente. Este pensava que com o professor vivo, jamais seria o número ! do mundo da arte de arco e flecha, por isso, assassinou-o quando este estava bêbado.
Chang E, na Lua, tinha a seu lado apenas um coelho que pilava ervas medicinais e um velho que cortava árvore e se arrependeu, levando uma vida solitária e triste.
 

Homem do Fogo

 

 
A mitologia chinesa é repleta de sábios, audazes e perseverantes heróis que atuam em defesa da população. Sui Ren é um deles.
O conto versa sobre o período em que os homens ainda não dominavam o fogo. Na penumbra da noite, os seres humanos agrupavam-se atemorizados pelos uivos de animais selvagens. Além disso, os homens consumiam alimentos crus, eram dizimados por doenças e tinham uma baixa expectativa de vida.

Um imortal Fu Xi, que vivia no céu, nutria uma profunda compaixão pelas cotidianas dificuldades dos seres humanos. Ele ansiava que eles dominassem o uso do fogo e mandou uma tempestade com trovões. Após um grande “brrum”,os raios cortaram as árvores, incendiaram seus galhos e tornaram os bosques um mar de fogo. As pessoas fugiram apavoradas. Pouco depois, a tempestade cessou enquanto a noite vinha chegando e a terra e o ar exalavam um cheiro de umidade. As pessoas se agruparam defronte às árvores queimadas. Neste momento, um jovem percebeu que não havia mais os uivos de animais selvagens e pensou: “será que os animais têm medo dessa coisa brilhante?”Aproximou-se com coragem do fogo e sentiu-se aquecido. Animado, chamou seus companheiros: “Venham cá. O fogo nos trouxe luz e calor “.
Enquanto isso, outras pessoas descobriram animais mortos, cujas carnes exalavam um cheiro gostoso. As experimentaram e gostaram. Conhecendo o uso de fogo, começaram a recolher ramos de árvores para manter acesa as chamas e um plantão para guardá-la todo o dia. Mas, um dia, o plantão dormiu no seu posto e a chama apagou-se. A humanidade voltou a cair na escuridão.
Fu Xi acompanhou tudo isso no céu e entrou no sonho do jovem que descobriu o uso de fogo, dizendo: “No Ocidente existe um país da Luz. Pode ir lá para buscar sua chama ”. Ao acordar, o jovem lembrou-se das palavras do imortal e decidiu buscar a chama no País da Luz.
Atravessando altas montanhas, grandes rios e imensas florestas, o jovem chegou finalmente ao País da Luz. Mas, não havia lá nem luz solar nem qualquer chama acesa. O mundo, ali, era escuro. Decepcionado, o jovem sentou-se em baixo de uma grande árvore. De repente, descobriu uma coisa cintilante à sua frente. O jovem levantou-se, começou a procurar a fonte da luz e viu alguns pássaros comendo pequenos insetos na árvore. O atrito entre o bico das aves e o tronco das árvores provocava faíscas. Inspirado pela cena, o jovem pegou um galho e começou a perfurar o tronco da árvore. Surgiram faíscas, mas não obteve fogo. O jovem insistiu em tentar o fogo friccionando os galhos nas árvores. Pouco a pouco, as fricções provocaram fumaça e, finalmente, o fogo. O jovem, emocionado, chorou.
O jovem voltou à terra natal e ensinou a técnica de produzir fogo com fricções. A população, admirando a valentia e sabedoria do jovem, elegeu-o como seu líder e chamou-o Sui Ren, “Homem do Fogo”.
 

Pan Gu, o criador do Universo

 

Segundo uma lenda chinesa, o mundo foi criado por Pan Gu. De início, o Universo e a Terra eram uma enorme confusão. O Universo assemelhava-se a um grande ovo preto dentro do qual dormia Pan Gu. Passaram-se dezoito mil anos, Pan Gu despertou do seu prolongado sono. Sentiu-se sufocado e então pegou num machado e quebrou com a casca do ovo. A parte clara e leve do ovo subiu e formou o Universo, a parte fria e turva sedimentou-se e transformou-se na Terra.
Preocupado com o fato do Universo e da Terra se juntarem novamente, Pan Gu pôs-se de pé, a fim de sustentar com a cabeça o Universo e a Terra com os pés. Cresceu dez chi (Chi, medida de comprimento antiga da China. Dez chi equivalem a 3,33 metros) por dia. Passaram-se mais dezoito mil anos, Pau Gu tornou-se num gigante com estatura de 90 mil li (45 mil quilómetros ). Passaram-se milhares de anos e o Universo permaneceu estável e a Terra, consolidada.
Tempos depois, esgotado, Pau Gu caiu na Terra e morreu.
Depois da morte de Pan Gu, a sua respiração transformou-se nos ventos e nuvens; sua voz, no trovão; um dos olhos tornou-se o Sol e outro, a Lua. Os braços, pernas e o tronco converteram-se em cinco grandes montanhas e seu sangue deu origem aos rios e lagos. Os nervos tornaram-se estradas e os músculos se converteram em terras férteis. Os cabelos e as barbas, as estrelas, e os pelos finos e a pele, flores e árvores. Os seus ossos tornaram-se jade e pérolas e o suor transformou-se no orvalho e na chuva que alimentam todos os seres vivos do planeta.
 

O Observador

 
Certo dia um rei chamou ao seu palácio o mestre zen Muhak - que viveu de 1317 a 1405 - e lhe disse que, para afastar o cansaço e a tensão do trabalho administrativo, queria ter uma conversa completamente informal com ele. Em seguida, o rei comentou que Muhak parecia um grande porco faminto procurando comida.
- E você, excelência parece o Buda Sakiamuni meditando, sobre um pico elevado dos Himalaias.
O rei ficou surpreso com a resposta de Muhak.
- Comparei você a um porco, e você me compara ao Buda?
- É que um porco só pode ver porco, excelência, e um Buda só pode ver Buda.


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