Lendas do Mundo

A tigela de madeira

  

 

Uma senhora de idade avançada foi morar com o filho, a nora e a netinha de 4 anos. As mãos da velhinha estavam trémulas, sua visão embaçada e os passos, vacilantes.
A família comia reunida à mesa. Mas as mãos trémulas e a visão falha da avó a atrapalhavam na hora de comer. A soja rolava de sua colher e caía no chão. Quando pegava a tigela, o missoshiru (sopa à base de pasta de soja) era derramado na toalha.
O filho e a nora irritaram-se com a bagunça: - Precisamos tomar uma providência com respeito à mamãe”, disse o filho.
- Já tivemos suficiente sopa derramada, barulho de gente comendo com a boca aberta e comida pelo chão.
Então, eles decidiram colocar uma pequena mesa num cantinho da cozinha.
Ali, a avó comia sozinha, enquanto o resto da família fazia as refeições na sala, com satisfação.
Desde que a velhinha quebrara uma ou duas tigelas de louça, sua comida era servida numa tigela de madeira. Quando a família olhava para a avó sentada ali sozinha, às vezes notava que ela tinha lágrimas nos olhos.
Mesmo assim, as únicas palavras que lhe diziam eram admoestações ásperas quando ela deixava um palito ou comida cair ao chão. A menina de 4 anos assistia a tudo em silêncio.
Uma noite, antes do jantar, a mãe percebeu que a filha pequena estava no chão, manuseando pedaços de madeira. Ela perguntou delicadamente à criança: “O que está fazendo?”
A menina respondeu docemente:
- Oh, estou fazendo uma tigela para você comer, quando eu crescer.
E a garota sorriu e voltou ao trabalho.


Lenda do Japão

Toguênkyo

 


Antigamente no Japão havia muitos vendedores ambulantes que levavam os produtos até as mais distantes aldeias. Certa ocasião um desses vendedores acabou encontrando um local muito bonito.
- “Nossa, isso parece o Toguenkyô, o Paraíso Terrestre! Devo estar sonhando” - disse maravilhado.
Surgiram então quatro lindas garotas que cercaram o moço que deitara na relva. As moças moravam num enorme palácio com a mãe, a senhora Shizen, que o convidou a passar a noite lá. Na manhã seguinte dona Shizen fez uma surpreendente proposta ao vendedor.
- O senhor já deve ter percebido que neste palacete só vivem mulheres. Eu e minhas quatro filhas: Haruko, Natsuko, Akiko e Fuyuko. Gostaria que ficasse a vontade pelo tempo que quiser. Mais que isso, gostaria que casasse com uma das minhas filhas.
O jovem que sempre foi uma pessoa pobre e solitária aceitou na hora. Sua vida mudou completamente. Era feliz. Vivia um sonho. Numa manhã dona Shizen anunciou que iria ao Hanami (ritual de apreciação das flores de cerejeiras), e pediu para que ele ficasse tomando conta do palácio. Antes de sair, porém, só fez uma recomendação:
“Se ficar entediado de ficar sozinho, pode abrir e espiar um pouco, três dos quatro portões que existem salão principal, para se distrair. Porém o quarto portão você não deve abrir em hipótese alguma. Não está autorizado. Promete que não vai abrir?”.
- De jeito nenhum.
No palacete Shizen havia um salão central onde haviam quatro portões fechados. O rapaz sempre teve curiosidade em saber o que haveria por atrás daqueles portões, porém como lhe haviam dito para não abrir, nunca tinha feito. Agora, pela primeira vez a dona da casa tinha autorizado que ele abrisse pelo menos três dos quatro portões. Sua curiosidade foi aguçada. Então se dirigiu ao salão central do palacete e abriu o primeiro portão. O primeiro impacto foi um enorme clarão. Depois, as vistas foram acostumando e percebeu nitidamente uma paisagem de praia. O mar estava azul como só acontece no verão e uma brisa suave soprou amenizando o calor. O rapaz ficou admirando a paisagem durante alguns minutos, teve vontade de caminhar descalço pela praia, mas a curiosidade de ver o que existe atrás de outros portões o deteve. Fechou o primeiro portão e abriu o segundo.Novamente um enorme clarão e as vista foram acostumando e o moço pode vislumbrar uma maravilhosa paisagem de outono. As folhas de momiji (acer) tingidas de amarelo-avermelhado cobriam matas e montanhas apresentando um cenário outonal de incrível beleza.
- Dá vontade de escrever uma poesia, pintar um quadro, plantar um bonsai! Pensou o rapaz.
Pouco depois, quando abriu a terceira porta, deparou com uma branca paisagem de neve que cobria campos, rios e montanhas. Apesar do frio invernal havia ali, uma vista de incrível beleza. Sendo aquele o último portão que ele estava autorizado a abrir, pensou em ficar mais tempo apreciando os flocos de neve que caiam mansamente. Porém como a proibição é a mãe da curiosidade, num impulso rápido, o moço fechou o terceiro portão e se dirigiu diante do quarto portão.Vacilou por um momento ao lembrar as palavras de dona Shizen que o proibiu veementemente de abrir aquele portão. O moço até sabia o encontraria ali. Estava começando a entender que atrás de cada portão estava a alma de cada uma das filhas de Shizen (Natureza): Haruko (Filha Primavera), Natsuko (Filha Verão), Akiko (Filha Inverno) e Fuyuko (Filha Inverno). Entendeu porque mesmo abrindo o portão de três delas, apreciando a beleza da alma delas, nelas não permaneceu. Ele havia casado com Haruko, cujo portão não lhe fora autorizado abrir.Com a mão tremendo na maçaneta, o jovem lutou consigo mesmo e foi vencido pela curiosidade. Abriu o quarto portão. Após um intenso clarão, tornou visível a paisagem que já esperava encontrar. Cerejeiras cobertas de flores e cantos de rouxinóis. Era uma visão maravilhosa, idêntica a de quando ele ali chegou, após estar perdido no bambuzal. Ele adentrou a paisagem e os rouxinóis param de cantar. Em seguida saíram voando e o moço pode ver que eram quatro os pássaros que antes estavam cantando. Lamentou que as aves tivessem se retirado e nesse momento ouviu a voz da senhora Shizen, que vinha de algum lugar da bela paisagem:- Vejo que você escolheu o caminho de volta a sua aldeia.
- Eu não quero voltar para minha aldeia. Quero ficar no palacete Toguenkyo. Respondeu o Rapaz.- Ao adentrar aquele portão você caminhou em direção contrária de onde veio, portanto está caminhando de volta para sua aldeia. Nós gostaríamos que você ficasse em Toguenkyô, por isso aconselhamos a não abrir o quarto portão. Porém você quebrou a promessa e escolheu o caminho de volta. A escolha foi sua por isso nada podemos fazer agora.
- Por favor, gostaria pelo menos de saber quem são vocês. Implorou o rapaz.
- Sou o espírito da mata, das montanhas, dos seres vivos e dos fenômenos naturais. Minhas filhas são espíritos das estações do ano que transformadas em rouxinóis vem anualmente na cantar primavera, em louvor as cerejeiras. Como você não cumpriu o prometido, e as viu em forma de rouxinol, quebrou o encanto. Para você o sonho acabou. Adeus.
No instante seguinte a bela paisagem primaveril desapareceu por completo e o vendedor estava numa clareira de um bambuzal. Era uma paisagem melancólica, o vendedor sozinho com sua pesada caixa de mercadoria nas costas.

 
Lenda do Japão
 

 

Zhou Ji aconselha o rei Qi a aceitar crítica

 
A obra Táticas dos Reinos Combatentes é um livro com mais de dois mil anos, que regista muitos factos históricos cheios de sabedoria.


O primeiro-ministro do reino Qi, Zou Ji, era um homem corpulento e elegante. Certa manhã, olhava-se no espelho depois de vestir-se bem e perguntou à esposa: “ Entre eu e o senhor Xu, que mora na zona norte da cidade, quem é o mais bonito?”
A senhora respondeu-lhe imediatamente como se tivesse a resposta na ponta da língua: “Claro que você é muito mais bonito!”
Zou Ji sabia que o sr Xu era famoso pela sua elegância. Desconfiado da resposta da esposa, perguntou à concubina: “Quem é mais bonito, eu ou o sr Xu?”
A resposta foi a mesma: “Ele não se compara com você”.
Pouco depois, chegou uma visita e Zou Ji formulou a mesma pergunta e logo teve a resposta: “O senhor é muito mais bonito do que o sr Xu”.
No dia seguinte, o sr Xu veio fazer-lhe uma visita. Zou Ji observou-o atentamente e quando o visitante se despediu, voltou a olhar-se no espelho e chegou à conclusão de que Xu era muito mais bonito do que ele.
À noite, já deitado, meditava: “Porque será que a minha esposa, a minha concubina e o meu visitante insistem em que sou mais bonito que o sr. Xu?” Pensava e repensava, compreendeu. Logo de manhãzinha, foi pedir uma audiência ao rei e disse-lhe: “Sei que não sou tão bonito como o sr. Xu, mas a minha esposa adora-me, a minha concubina teme-me e o meu visitante queria pedir-me um favor. Todos eles, queriam agradar-me e por isso encobriram a verdade e mentiram-me”.
E prosseguiu: “Nosso reino é grande. No palácio real, quem é que não adora o rei? Qual é o ministro ou o general que não o teme? Dos súbditos de todo o país, quem é que não pretende a sua protecção? Por isso, são inúmeros aqueles que o bajulam, e o rei deve ser muito enganado…”
O rei, aproveitando a lição, promulgou um decreto para valer em todo o país, segundo o qual seria premiado “quem quer que desse um conselho ou fizesse uma crítica ao rei”.
Nos primeiros meses após a promulgação do decreto, muitas pessoas foram fazer críticas ou oferecer conselhos ao rei, fazendo com que o pátio do palácio real estivesse tão cheio de gente como uma feira. Um ano depois, as pessoas não tinham o que criticar mesmo que quisessem. Inteirados do comportamento do rei Qi, os reinos Zhao, Han e Wei enviaram seus emissários ao reino Qi para apresentar seu respeito.

Entende-se nesta lenda que uma pessoa deve saber conhecer ela própria e não acredita cegamente nas palavras da sua gente íntima ou daqueles que peçam o favor dela.
 


Read more: https://estudamais.webnode.com/lendas/lendas-do-mundo-/